O que aprendi ao falar de proteção com crianças que já sofreram violências

Esse não é o tipo de texto que costumo postar aqui.
Mas é, talvez, um dos mais importantes que já escrevi.

Nesse último mês, eu fiz um trabalho voluntário em um abrigo — um lugar que acolhe crianças que, por diferentes motivos, precisaram ser afastadas de suas famílias.

A proposta era falar sobre proteção. Mas, no começo, uma pergunta ficou muito presente para mim:

Como falar sobre proteção com crianças que já foram feridas?
Que já tiveram seus limites desrespeitados?
Que já foram afastadas de quem deveria protegê-las?

A verdade é que não dá para partir do mesmo lugar.

Não é sobre ensinar “do zero”.
É sobre reconstruir.

Reconstruir a ideia de que o corpo importa.
Que sentimentos podem ser ouvidos.
Que existem, sim, adultos em quem se pode confiar.
E, principalmente, que elas têm direito à proteção.

Porque, para essas crianças, aprender sobre proteção não é só aprender.
É, muitas vezes, ressignificar a própria história.

Os encontros foram muito potentes, sensíveis e transformadores.

Mas, talvez, o mais marcante de tudo…
foi perceber que eu fui para ensinar —
e acabei aprendendo muito mais do que imaginava.

Quem me acompanha já sabe o quanto eu acredito que informação é proteção.

E foi por isso que, no último dia, entreguei a eles uma pequena biblioteca de proteção.

Separei livros que podem ajudar a continuar esse trabalho — com linguagem, histórias e caminhos possíveis.

Usei o meu livro ao longo dos encontros, mas, assim como ele, existem muitos outros recursos incríveis que podem fazer diferença.

Consegui montar essa biblioteca com a ajuda do grupo Laço de Vida — um grupo voluntário lindo, do qual a minha mãe faz parte — que contribuiu para a compra dos livros com tanto carinho.

Quando entreguei a caixa, um menino olhou para ela e disse: “Temos que cuidar bem… porque aí dentro tem mais do que livros. Tem amor.”

E talvez seja isso que eu mais levo desse mês.

Aprendi que o amor nem sempre vem de onde deveria ter vindo.
Mas ele pode, sim, ser encontrado em outros lugares.

Na simplicidade de um encontro.
No silêncio respeitado.
No colo oferecido.
Na atenção verdadeira.

E que, aos poucos, esse amor pode ajudar a reconstruir o que foi quebrado.
Pode abrir espaço para a confiança de novo.
Para a esperança.
Para novas formas de olhar para a própria história.

E talvez seja isso que a gente faz quando fala de proteção:

A gente não apaga o que aconteceu.
Mas ajuda a construir o que pode vir depois.