A ideia é simples: a tecnologia não deveria ensinar primeiro aquilo que a vida real ainda não ensinou.
Quando uma habilidade começa a ser construída principalmente no ambiente virtual, existe o risco de a tecnologia ocupar o lugar das experiências de que a criança precisa para se desenvolver. Em vez de ferramenta, ela pode se tornar uma muleta.
Para entender melhor esse conceito, vamos pensar nas amizades.
No ambiente digital, iniciar e encerrar interações pode parecer muito mais fácil. Se não gostou, bloqueia. Se cansou, sai. Se discordou, desliga.
Mas a vida real não funciona assim. No mundo real, não existe um botão de sair. Existe convivência. E convivência exige habilidade.
Entrar em uma brincadeira, esperar a vez, perceber expressões faciais, discordar, lidar com rejeições, resolver conflitos e reparar vínculos são habilidades construídas no contato com o outro. Por isso, antes de aprender a fazer amizades no ambiente digital, a criança precisa aprender a se relacionar no mundo real.
O mesmo acontece com a autorregulação.
Quando a tela é oferecida sempre que a criança chora, se irrita, precisa esperar ou demonstra tédio, ela pode aprender que aquele dispositivo é sua principal forma de se acalmar.
A tela pode interromper o desconforto rapidamente. Mas interromper uma emoção não é a mesma coisa que aprender a lidar com ela.
A criança precisa experimentar outras formas de atravessar emoções difíceis: receber a ajuda do adulto para entender o que sente, pedir colo, conversar, respirar, movimentar o corpo, buscar um lugar tranquilo ou simplesmente esperar a intensidade da emoção diminuir.
Isso não significa que uma família nunca possa recorrer à tela em um momento difícil. A questão é perceber se ela está sendo um recurso eventual ou se se tornou a única estratégia disponível.
Para mim, essa é a grande ideia que nós, adultos, precisamos compreender: preparar as crianças para a tecnologia não começa quando elas passam a utilizá-la. Começa antes.
Não se trata de preparar as crianças para um mundo sem tecnologia. Trata-se de ajudá-las a construir, fora das telas, os recursos necessários para viver bem também dentro delas.
Quando as habilidades essenciais vêm primeiro, a tecnologia pode ocupar o lugar que deveria: ferramenta, não muleta.