Em muitas famílias, o beijo na boca é visto como uma demonstração de carinho, sem qualquer intenção negativa. No entanto, quando pensamos no desenvolvimento e na proteção infantil, essa prática merece atenção.
Crianças aprendem pelo exemplo. Elas observam, imitam e replicam comportamentos que fazem parte do seu cotidiano. Quando o beijo na boca é naturalizado dentro de casa, é comum que a criança leve esse comportamento para outros contextos.
Na prática, isso aparece com frequência: crianças podem tentar beijar colegas na boca, confundir diferentes formas de demonstração de carinho e ter dificuldade em estabelecer e respeitar limites corporais. Isso não acontece por maldade — acontece porque, para a criança, esse comportamento é percebido como algo normal.
Para ela, carinho é carinho. E, se esse é um modelo válido dentro de casa, ela entende que pode ser válido em qualquer lugar.
E é aí que começa um ponto crítico do ponto de vista da proteção.
Crianças ainda estão em desenvolvimento e não conseguem diferenciar com clareza o que é um gesto de carinho, o que é um comportamento inadequado e o que é apropriado em cada contexto. Isso significa que elas podem não conseguir discernir quando um comportamento ultrapassa um limite.
E é exatamente essa confusão que pode ser explorada por pessoal mal intencionadas.
Quando uma criança aprende que beijo na boca é um gesto “normal” entre pessoas próximas, um adulto mal-intencionado pode se apoiar nessa referência para se aproximar sem gerar estranhamento, apresentar um comportamento inadequado como se fosse “carinho” e confundir a percepção da criança sobre o que está acontecendo.
Ou seja, o risco não está no gesto em si, mas na mensagem que ele constrói sobre o que é permitido ou não com o próprio corpo.
Infelizmente, muitas situações de abuso sexual contra crianças acontecem justamente assim: não começam como algo claramente violento, mas como interações que parecem familiares, conhecidas ou “aceitáveis” para a criança.
E há um ponto ainda mais importante: a maioria dos abusos não é cometida por desconhecidos, mas por adultos de confiança — pessoas que fazem parte do convívio da criança e da família.
Se a criança não tem clareza sobre limites, ela pode não estranhar a situação, não reconhecer que algo está errado e não contar para um adulto.
💡 O que podemos fazer?
- Buscar outras formas de demonstrar afeto, como abraço, beijo no rosto e carinho.
Explicar limites de forma clara: crianças não beijam na boca. De ninguém. Se alguém pedir, ela deve contar para um adulto de confiança.
- E, claro, como eu sempre digo: respeitar e validar os limites da criança. Ou seja, não forçar ou insistir em nenhum tipo de contato físico contra a vontade dela.