O que estamos chamando de empoderamento feminino?

Hoje se fala muito em empoderamento feminino. A exposição do corpo tem sido, para muitas mulheres, uma forma de reivindicar poder e autonomia sobre a própria sexualidade. Mas será que essa escolha é realmente nossa?

Se olharmos com atenção, perceberemos que a ideia de empoderamento que nos oferecem ainda segue a mesma lógica de sempre: a mulher como objeto de desejo. O que antes era visto como objetificação agora é romantizado e vendido como escolha. Mas será que estamos mesmo escolhendo?

Como falamos na semana passada, a cultura pornificada está em todo lugar: nas coreografias sensuais feitas por meninas cada vez mais novas, nas letras de músicas que reduzem a mulher ao corpo, nos filtros que moldam rostos para caber em padrões inatingíveis, nos filmes e séries que reforçam essa narrativa. Em vez de apenas serem objetificadas pelos outros, as mulheres são incentivadas a se objetificar por conta própria. Aos poucos, a hipersexualização se tornou aspiracional — e, pior, passou a ser confundida com empoderamento.

A linha entre empoderamento e hipersexualização é delicada. Quando a exposição do corpo ultrapassa a esfera da escolha e do consentimento da mulher, ela deixa de ser afirmação e passa a reforçar estereótipos, limitando sua autonomia. E isso não é empoderamento.

Por conta disso, meninas crescem acreditando que seu valor depende da atenção que recebem. Aprendem cedo que precisam se encaixar em um ideal estético, performar uma feminilidade que as torne desejáveis e buscar validação constante.


Se não despertam desejo, são invisíveis.
Se não seguem as tendências, são descartáveis.
Se não se expõem, são insignificantes.
Se não acumulam likes, são irrelevantes.

Aos poucos, passam a medir seu valor pela aparência e pela aprovação alheia. E, talvez o mais cruel, aprendem a se enxergar pelos olhos dos outros antes mesmo de descobrirem quem realmente são.

Mas o verdadeiro empoderamento não se mede em curtidas nem depende da validação externa. Ele nasce de dentro. É poder dizer “não” sem medo. É ocupar espaços sem se moldar. É se expressar sem precisar atrelar tudo à sedução. É ser reconhecida pela força, pela inteligência, pela autenticidade.

Precisamos oferecer às meninas referências femininas que ultrapassem a aparência. Mostrar exemplos de mulheres que inovaram, criaram, lideraram, revolucionaram. Construir um ambiente em que sejam valorizadas pelo que são — e não pelo quanto agradam.

Empoderamento não é se encaixar no que esperam de você. É ser livre para ser quem você é, do seu jeito.

E talvez essa seja a maior revolução que podemos ensinar às nossas meninas: a de entenderem que o poder já está nelas.

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