Do choque à indiferença: por que o que antes escandalizava hoje parece normal?

Você já percebeu que certas coisas que antes te chocavam — por serem explícitas, pesadas ou até pornográficas — hoje parecem normais?

Isso acontece porque esses estímulos estão em toda parte: nas músicas, nos clipes, nas séries, nas propagandas e até na moda. O que antes era exceção virou cotidiano.

A nudez passou a ser vista como comum. Cenas de sexo explícito aparecem em filmes e séries de grande audiência. Letras de músicas trazem insinuações eróticas sem qualquer filtro, acessíveis a todas as idades. Ícones da música e das artes surgem constantemente em roupas hipersensuais, reforçando padrões de hipersexualização que se espalham, são imitados e admirados em massa.

E quando algo está em todos os lugares, deixa de chocar. Passa a ser parte da cultura.

Esse processo chama-se dessensibilização: ficamos tão acostumados a imagens sexualizadas que elas passam a parecer naturais, quase invisíveis.

A socióloga Gail Dines, em seu livro Pornland: How Porn Has Hijacked Our Sexuality (2010), descreve esse fenômeno como cultura pornificada (ou pornificação). Segundo Dines, a pornografia deixou os cantos obscuros e se transformou em uma mercadoria “polida”, incorporada ao cotidiano como se fosse moda ou entretenimento glamouroso.

O que antes era considerado obsceno e chocante passou a ser consumido sem questionamento. Aos poucos, a cultura pop passou a usar essas imagens hipersexualizadas como ferramentas para atrair atenção, gerar lucro e patrocínios. O impacto se diluiu. O choque desapareceu.

E o mais grave: nossas crianças e adolescentes estão crescendo imersos nessa cultura, absorvendo a hipersexualização como se fosse o “normal”. E isso tem consequências sérias, relacionadas à ansiedade, insatisfação corporal, transtornos alimentares e depressão, e até à tolerância à violência sexual. O resultado é uma geração inteira crescendo com modelos de sexualidade baseados em poder, consumo e violência — e não em respeito, afeto e vínculo.

 

Quando o “normal” deixa de bastar

E quando o “normal” já não impacta mais, a indústria pornográfica se reinventa. Para manter a atenção do público, o mercado avança para conteúdos cada vez mais pesados: práticas degradantes, violência sexualizada, humilhação e submissão extrema.E muito do conteúdo pornográfico online é gratuito e sem filtros.

Essa é outra consequência grave desse movimento, com efeitos profundos na sociedade como um todo.

Essa escalada não acontece por acaso. É a lógica de um mercado que precisa ir sempre além para prender consumidores já dessensibilizados. O resultado é uma pornografia cada vez mais hardcore, que naturaliza a violência e transforma a dor em espetáculo.

O problema é que esse mercado não afeta apenas os adultos.
Crianças e adolescentes, em uma simples busca — ou até sem procurar — podem ter acesso a esse tipo de material.

E quando o contato com a sexualidade passa a acontecer através de imagens violentas e desumanizadoras, os impactos são profundos:

  • meninos aprendem a associar prazer à dominação e à agressividade,
  • meninas são levadas a acreditar que a dor ou a humilhação fazem parte do que significa ser desejada,
  • a ideia de consentimento se perde em meio a narrativas de poder e submissão.

Na ausência de conversas em casa e de programas consistentes de educação sexual nas escolas, a pornografia acaba se tornando a “educação sexual de fato” para muitos jovens — que tem o primeiro acesso por volta dos 10 anos – moldando sua visão de corpo, desejo, gênero e relacionamentos de forma perigosa e distorcida.

É hora de tomarmos as rédeas e mostrarmos que a verdadeira educação sexual nasce no diálogo, no cuidado e no respeito — para cuidar não apenas dos nossos filhos, mas de toda uma sociedade.