Recentemente, recebi o kit da campanha É Meu, do Boticário, e fiquei muito feliz em conhecer a iniciativa mais de perto.
A proposta é transformar a hora do banho em uma oportunidade para conversar com as crianças sobre o próprio corpo, intimidade, limites e respeito. Um momento de cuidado que também pode ensinar sobre proteção.
Essa ideia conversa muito com o que vejo na minha prática como psicóloga e nas aulas de proteção infantil que ministro há quase 10 anos para crianças a partir dos 2 anos.
“Pocahontas”, “florzinha”… e por que não vulva?
Nas minhas aulas, já ouvi crianças chamarem as partes íntimas pelos nomes mais criativos. “Pombinha”, “florzinha”, “menininha”… até “Pocahontas” eu já ouvi.
Mas sabe o que quase nunca ouço? Vulva.
Embora esses apelidos possam parecer engraçados ou carinhosos, eles revelam uma dificuldade que ainda temos como adultos: falar sobre as partes íntimas com a mesma naturalidade com que falamos sobre braços, pernas e outras partes do corpo.
Ensinar os nomes corretos faz parte desse cuidado. Ajuda a criança a conhecer o próprio corpo e a ter palavras para fazer perguntas, expressar um desconforto ou contar algo que aconteceu.
As conversas começam nos pequenos momentos
Muitas famílias querem abordar esses assuntos, mas não sabem como, o que dizer ou quando começar.
O cotidiano oferece várias oportunidades: durante o banho, na troca de roupa, na leitura de uma história ou ao responder a uma pergunta curiosa.
Nesses momentos, podemos ensinar, com linguagem adequada à idade, que o corpo da criança merece respeito, que suas partes íntimas são privadas e que seus sentimentos importam. Podemos conversar sobre os cuidados de higiene e saúde, explicar o que estamos fazendo e ouvir quando ela demonstra desconforto.
Também podemos reforçar que ela tem o direito de dizer “não” e pedir ajuda. E que, mesmo quando não consegue falar ou reagir, nunca é culpada por alguém desrespeitar seu corpo.
São conversas que ganham sentido quando nossas atitudes também demonstram respeito pelos seus limites.
Uma história também pode abrir essa conversa
Foi por acreditar na importância dessas aprendizagens que escrevi O Poder de Me Proteger.
No terceiro capítulo, Dudu conversa com o leitor sobre as partes íntimas, seus nomes corretos, quem pode vê-las ou tocá-las e em quais situações.
Ao longo das cinco histórias, o livro também aborda sentimentos, segredos, pessoas de confiança, consentimento e toques seguros e inseguros. As atividades práticas ajudam as crianças a trabalhar o que aprenderam, e o guia para adultos explica a importância desses temas e como abordá-los.
Meu objetivo é oferecer ferramentas às crianças e ajudar os adultos a abrir um canal de comunicação com elas.
Cuidado que ensina e aproxima
A campanha É Meu mostra como um hábito cotidiano pode criar espaço para essas aprendizagens. A renda obtida com as vendas do sabonete será destinada ao Instituto Liberta, com o qual tive a alegria de colaborar na elaboração do Guia Saber Liberta, um material gratuito para famílias e educadores.
Você pode conhecer a iniciativa e seus materiais no site da campanha É Meu.
Proteger uma criança é construir, dia após dia, uma relação em que ela se sinta segura para perguntar, contar e pedir ajuda.
A hora do banho, uma história ou uma pergunta podem ser o começo. O que sustenta essa conversa é a nossa disposição para ouvir, explicar e cuidar.